
Os pais de José Bento (nome fictício), hoje com 31 anos, se separaram quando ele tinha 7. Daí em diante, o procurador passou a ter uma relação conflituosa com o pai, com brigas contínuas que duraram até ele completar 22 anos - quando fizeram as pazes. Essa situação foi uma das primeiras a marcar a vida do procurador, que, na época da faculdade, bebia quase todos os dias e, ao longo do tempo, se tornou uma pessoa cada vez mais ansiosa e tensa, que se sentia perseguida. Para completar, mais recentemente, o suicídio de um colega de trabalho próximo a ele o assustou, fazendo-o se questionar se a vida tinha sentido. "Eu ficava muito ligado a qualquer notícia sobre morte, achava que todo mundo estava morrendo e isso me apavorava. Fui ao psiquiatra, que identificou em mim um quadro de ansiedade intensa, mas, após certo período, fui diagnosticado com estresse pós-traumático", relata. José Bento é um exemplo clássico de como fatores diversos levam uma pessoa a desenvolver transtornos do trauma, que afetam tanto o psicológico quanto o organismo do indivíduo. Felizmente, um tratamento chamado experiência somática (SE, na sigla em inglês) vem o ajudando a se recuperar desse problema.
A terapia foi desenvolvida pelo biofísico Peter Levine, diretor do Instituto de Experiência Somática do Trauma, nos Estados Unidos. Ele explica que os transtornos do trauma apresentam vários sintomas, inclusive físicos. "A pessoa pode sentir dores de cabeça constantes sem nenhum motivo aparente, desenvolver tiques nervosos, ter paralisia facial, sofrer provisoriamente a atrofia de algum membro, ter cólicas intensas, irritação, ansiedade, medo, insegurança, explosões de raiva, depressão e incapacidade para lidar com as frustrações do dia a dia", enumera. Todas essas sensações, contudo, geralmente são reprimidas pela própria pessoa, com medo de parecer emocionalmente vulnerável.
O terapeuta destaca que diariamente os indivíduos são pressionados a se ajustarem depressa demais após qualquer evento avassalador. "Pesquisas indicam que entre 10% e 15% dos adultos sofrem de ataque de pânico, ansiedade inexplicável ou fobias. Além disso, 75% dos que vão ao médico apresentam queixas psicossomáticas, para as quais não é possível encontrar explicação física. Meu trabalho me leva a acreditar que muitos desses pacientes têm histórias traumáticas que contribuíram para seus sintomas", garante. Ele adverte que, no momento de uma situação que gera impactos negativos no emocional, o apoio de amigos e parentes pode ter grande influência sobre o indivíduo. "Alguns são mais resistentes a fatos estressantes, mas depende da capacidade de adaptação e resistência de cada um".
Foco de autoconfiança
Com base em todas essas questões, ele desenvolveu a SE. A abordagem visa ajudar quem passou por situações traumáticas a reencontrar a segurança, a vitalidade e o equilíbrio nas sensações do corpo, saindo do estado de choque para completar as respostas instintivas de defesa que ficaram interrompidas no meio do processo - e completar o ciclo de reação, como fazem os animais. "Desse modo, são descarregados os resíduos de tensão que ficam no sistema nervoso autônomo (SNA) e afetam o corpo e a mente, o que permite a recuperação da autoconfiança e a conexão com as pessoas próximas. O trauma não é mais revivido, mas lembrado como uma experiência que pode trazer muitos ensinamentos", destaca o autor do livro O Despertar do tigre - Curando o trauma (Summus Editorial). Foi a experiência somática que, nos últimos seis meses, mudou a vida de José Bento. Por indicação da terapeuta, o procurador, que chorava o tempo todo, sentia arrepios e tontura, conseguiu voltar à vida normal. "Não tenho mais os sintomas, estou animado, voltei a praticar esportes e trabalho com muito ânimo. Consegui retomar a minha rotina de estudos e voltei a acreditar aos poucos nos meus sonhos. Foi muito bom porque evitei os medicamentos psiquiátricos", comemora.
Apesar de não existirem dados específicos sobre transtornos do trauma no Brasil, a Associação Brasileira do Trauma (ABT) tem informações de que 10% das crianças de baixa renda sofrem abusos e espancamentos em casa. Entre elas, 35,8% apresentam estresse pós-traumático, o que pode influenciar muito no modo com que vão lidar com as adversidades no futuro. Ainda assim, nem só de situações graves é construído o trauma. "Os mais comuns são por choque, resultante de assalto, acidentes, violência verbal, agressões físicas, sustos, quedas e sequestros. Eles também podem ocorrer por problemas no processo de desenvolvimento psicológico da criança", descreve a psicóloga especializada em estresse pós-traumático e em dor crônica Sonia Gomes, membro da ABT.
Explicação científica
Todas as reações biológicas para o trauma vão além dos fatores psicológicos, como comprovou o neurocientista norte-americano Stephen Porges, criador da teoria polivagal. A teoria, baseada na história evolutiva dos vertebrados, mostra que os seres humanos têm dois sistemas de defesa distintos, que se desenvolvera em estágios diferentes da evolução. "Um sistema do medo, está associado ao sistema nervoso simpático. Ele suporta luta, fuga, ansiedade e a maioria das características associadas ao estresse. O outro sistema de defesa, o parassimpático, é caracterizado pela falta de mobilização. Nós o observamos nos répteis, quando param de respirar e ficam imóveis", ensina. Um exemplo é quando o indivíduo desmaia ao presenciar algo assustador. Ele passa pelo processo de neurocepção, que consiste em o organismo notar o que ocorreu e atuar de modo que acha mais adequado.
Mas o que isso tem a ver com o trauma? Segundo Porges, que lançou no Rio de Janeiro, na primeira semana de maio de 2012, no seminário Neurociência do Trauma realizado pela ABT, o livro A Teoria Polivagal: a base neurofisiológica das emoções, apego, comunicação e autorregulação (editora Senses Neurociências e Aprendizagem), as características do ambiente e das pessoas que cercam o indivíduo que passa por problemas desencadeiam os estados neurofisiológicos que ajudam no comportamento social e defensivo. "Esses fatores são detectados pelo nervo vagal. A teoria polivagal, portanto, explica as respostas fisiológicas ligadas à mobilização do corpo. Ela detalha ainda como essa ação tem papel protetor na vida de indivíduos traumatizados, pelo menos em um primeiro momento", conclui. Compreendo como age o sistema nervoso autônomo e como lidar com ele, a qualidade de vida pode voltar a existir. "Na prática, a técnica de SE trabalha os processos interrompidos, congelados, nos pacientes vítimas de trauma por meio das sensações corporais. O trauma fica retido no SNA por meio das memórias sensoriais. Por isso é importante conhecer seu funcionamento", esclarece Gomes.
(Correio Braziliense)